Na Finlândia pais podem optar pelo ensino domiciliar

kotikoulu

Tenho que confessar que fiquei um pouco espantada! Na verdade, o ensino domiciliar existe em vários países, entre eles Portugal, Estados Unidos, França, etc .  Mas é incrível pensar que o país que está no topo em educação, onde a educação é uma prioridade não obriga os seus alunos a frequentarem uma escola regular. É isto mesmo, segundo a legislação finlandesa, os pais podem optar por esta modalidade peculiar de ensino e, neste caso, a obrigação é repassada do Estado aos pais.

Como comentou a diretora no Mec Jaana Palojärvi, este é um país de paradoxos e realmente, este é um deles. Na verdade tudo se resume num princípio básico e pertinente somente à sociedades mais desenvolvidas como esta: Oferece-se a oportunidade e a qualidadde, mas se respeita a decisão do cidadão de recusar. Interessante, não é? Pensaria-se que já que o Estado oferece gratuitamente uma das melhores educações do mundo e realmente investe recursos, seria de se esperar a obrigatoriedade, até pelo fato da simples questão da facilidade de controle sobre os números. Pois é, o controle foi substituído pelo respeito.

Mas, por quê os pais resolvem ensinar em casa? São na verdade, várias razões:

  • A distância para a escola mais próxima no interior do país. A Finlândia ainda possui locais de grandes espaços populacionais onde principalmente no inverno ir para a escola pode ser um projeto bem complicado.
  • Problemas de aprendizagem. Apesar da escola finlandesa possibilitar toda a ajuda necessária aos alunos e pais de crianças com alguma dificuldade, mesmo assim alguns pais preferem, por conhecerem melhor o ritmo dos seus filhos, ensinar em casa e garantir que a criança realmente aprenda e consiga seguir em frente.
  • Problemas de saúde. Muitos finlandeses tem problemas, alergias com o “mofo fino”, um tipo de mofo difícil de se detectar mas que afeta imediatamente o pulmão de quem tem alergia. Muitas escolas têm este problema.
  • Filosofias diferentes de vida. Cristãos ou naturalistas, ou qualquer outra família que não esteja muito satisfeita com o rumo que a sociedade moderna está caminhando e resolve por esta questão iniciar a vida estudantil dos seus filhos em um ambiente “seguro”.

Desta forma, a Finlândia possibilita legalmente que os pais que assim desejarem sejam os tutores dos seus filhos, eles receberão o currículo básico com o que cada série necessita estudar e os respectivos livros. Os pais decidem quantas horas diárias será dedicada às aulas e no final do ano estes alunos são submetidos a uma prova que testa suas habilidades. A escola mais próxima proporciona um professor que vai analisar o desempenho deste aluno e decidir se o mesmo tem condição de seguir para a série subsequente. Existe até uma página na Internet que auxilia estes pais e funciona como um fórum de discussões (www.kotikoulu.net). Como sempre, tudo muito bem organizado aqui por estas bandas!

De acordo com os depoimentos de diretores e professores que passaram por este tipo de experiência, estes alunos em geral têm apresentado um ótimo desempenho, sempre com boas notas. Geralmente passam sem problemas para a outra série. Pelos números de 2009 a Finlândia tinha 300 alunos nesta situação mas a tendência era que estes números aumentassem. Talvez tenhamos hoje uns 400 alunos em ensino domiciliar.

Geralmente o ensino domiciliar vai até a sexta série, que é o ginásio inferior, mas alguns pais resolvem continuar o sistema até a nona. A partir disto, para o ensino médio, estes alunos são encaminhados para uma escola normal.

E se engana quem pensa que só vamos encontrar estes pais “super professores” nas regiões mais remotas da Finlândia. Eles são uma espécie que existe também na capital.  A família Malmströn é um exemplo disto. O casal multicultural, pai finlandês e mãe argentina, residentes em Helsinki também preferiram o sistema do ensino doméstico . O família fala três línguas (finlandês, espanhol e inglês) e já que a mãe está em casa, decidiram que o melhor para o filho seria ter nas mãos o controle total da sua educação. A mãe está mais presente e divide o tempo do estudo do filho em 45 minutos pela manhã e 45 minutos a tarde. O pai auxilia nos deveres de casa e nas dúvidas em relação a gramática finlandesa à noite.

E a sosialização, como fica? Pergunta comum e preocupação dos professores que não concordam muito com esta prática. Os pais e os próprios alunos dizem não haver problemas neste sentido, uma vez que as crianças têm contato diário com os amigos através dos seus hobbies e vizinhos. Os alunos que passaram por este tipo de educação não demonstraram mais tarde nenhum distúrbio relacionado.

Existe muita discussão a este respeito, aqui também existem os radicais, como em qualquer lugar. Há aqueles completamente contra e que apresentam todo o tipo de argumentos culpando e classificando estes pais com vários adjetivos. Existem aqueles que são contra a instituição escola, por tudo que ela pode influenciar negativamente no desenvolvimento moral dos seus filhos. São absurdos dos dois lados, mas a questão é que a persitência destes pais-professores é admirável. Seja como for, a educação domiciliar exige mais dos pais, que passam a supervisionar intensamente o ensino-aprendizagem de seus filhos.  Eu, como professora, já perdi a paciência muitas vezes tentando ensinar os meus filhos e não me imaginaria sendo professora particular deles por seis ou nove anos. Você seria capaz desta dedicação total?

No Brasil, antigamente nós tínhamos também o ensino doméstico, mas hoje este carece de regulamentação, pois vai de encontro a lei de “abandono intelectual” que pode processar os pais por não colocarem seus filhos na escola. Complicado, porque nós não temos como fazer um controle preciso como o finlandês de quem está ou não matriculado na escola. Veja-se o elevado índice de evasão que ainda temos.

Ao mesmo tempo que a Finlândia atua como um “Big Brother” onde tudo e todos estão devidamente catalogados e controlados em seus registros públicos, eu me vejo admirando o respeito que esta mesma  sociedade tem para com os discidentes. Isto é democracia!

Lembrando do velho Voltaire que dizia: Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la, ou neste caso, fazê-la!

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